Cubano faz o melhor cartum, uzbeque vence na charge e campineiro conquista a categoria especial Carlos Gomes
A revelação dos premiados do 1º Salão Internacional de Humor de Campinas confirma a voz corrente no mundo atual: os melhores caricaturistas do planeta estão no Brasil. Não que os estrangeiros sejam ruins na arte. Pelo contrário, basta visitar o Centro de Convivência Cultural até o dia 19 de dezembro para conferir que os gringos mandam muito bem. Mas os brasileiros, ah, mandam muito melhor. Que o diga o carioca Ray Costa (lê-se Raí, como o jogador de futebol), autor do belíssimo Michael Jackson que ficou com o primeiro lugar no evento.
Um Michael Jackson distorcido (uma redundância, quem sabe) e decomposto em traços retos que, longe de ressaltar a estranheza do ídolo pop morto recentemente, o faz ainda mais factível. Um trabalho maravilhoso, que grita com todas as forças “eu mereço ser o primeiro”, em contraste com a timidez aparente de seu autor. “Não esperava ganhar e para mim é um reconhecimento muito grande, ainda mais em um júri que tem o grande Dalcio Machado”, diz Costa, fazendo referencia ao jurado que é também um dos mais premiados caricaturistas da atualidade.
Ele recebeu o prêmio diretamente das mãos de um júri entusiasmado – que vê no trabalho do carioca um potencial internacional – após viajar do Rio de Janeiro a Campinas só para participar da abertura, acompanhado de outro ás da caricatura, Mattias, que levou para casa uma menção honrosa por sua instigante Madre Teresa. O segundo colocado na categoria, o paulistano Junior Lopes, também participou da noite de abertura. Aliás, uma noite memorável.
O popular CCC estava lotado de ávidos fãs da nona arte que não se decepcionaram com as 177 obras expostas, uma mais bela que a outra. Antes do Salão ser aberto, porém, o organizador Jan Fernandes e as autoridades presentes – o prefeito de Campinas em exercício, Demétio Vilagra, o secretário municipal de Cultura Arthur Aquiles e representantes do Instituto Eco – falaram aos presentes com uma tônica comum: o Salão já é um sucesso e todos farão o máximo para viabilizar a segunda edição.
Vilagra, por sinal, chamou a atenção ao relembrar os tempos da ditadura nos quais conheceu ninguém menos que Henfil. O cartunista pintou uma parede do bar que então pertencia ao vice-prefeito e amigos, durante o lançamento de um livro. “Hoje vivemos em uma democracia, mas as charges, cartuns e mesmo as caricaturas continuam tendo um papel importante para corrigir os erros das pessoas, para criticar e nos ajudar a refletir. Tudo com muito humor, é claro, e poucas coisas são mais demolidoras e eficientes do que o humor”, pontua.
Aberto o salão, o público pôde conferir de perto o porquê do júri ter decidido selecionar 177 trabalhos em vez dos 100 previstos inicialmente. Viu também as belíssimas caricaturas (a maioria esmagadora enviada por artistas nacionais), inúmeras charges de humor crítico e devastador, belíssimos cartuns com o tema meio ambiente que causam ora um riso reflexivo, ora um sorriso amarelo de quem pertence à raça (des)humana que destrói o planeta. E, claro, trabalhos homenageando o mestre Carlos Gomes, afinal o salão é de Campinas.
Quem não viu ainda tem chance, mas fica aqui um aperitivo com os premiados (ressaltando: vale a pena ver todos os selecionados) e o desejo de que realmente venha o segundo salão. E o terceiro. E o quarto. E o quinto...
* Texto publicado originalmente no site
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